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Margarida Pinto Correia
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Margarida Pinto Correia, coordenadora da Fundação do Gil falou para o Programa Nós da RTP 2. Aqui fica uma parte da entrevista desta jornalista e apaixonada viajante que nos convida a conhecer o mundo e a estar atentos e disponíveis para dialogar com o outro.

Nós – Margarida, o facto de ter vivido fora o que é que lhe trouxe?

MPC – Mundo... basicamente o mundo, a ideia de que está tudo muito pertinho e de que somos todos muito parecidos, de facto. Fui estudar para os Estados Unidos aos 17 anos. Nunca tinha lá ido nem conhecia ninguém por perto. Tive um ano e meio de abrir horizontes, de conhecer uma outra cultura, de perceber a minha própria cultura, a importância do meu país. Antes tinha viajado pela Europa com os meus pais de carro. Andar de carro dá-nos sempre uma noção muito mais real do que está à nossa volta.

Nós – Sentiu-se um pouco imigrante?

MPC – Senti-me. É interessante. Eu estava nos EUA quando estreou o filme “Os Acusados” com a actriz Jodie Foster que era uma adaptação de uma história verdadeira que se passou com imigrantes portugueses, em New Jersey, penso eu. Eles eram os que se portavam mal, violavam uma rapariga local. Na altura, lembro-me da discriminação que sofri na escola. Os meus colegas de 17 e 18 anos olhavam para mim e perguntavam: és portuguesa não és? E, até ali tinha sido tu cá tu lá. De repente sentir aquele olhar, foi tão estranho para mim. Ainda por cima, eu venho dum meio familiar e social muito intervencionista. Antes do 25 de Abril já tinha o sentimento da revolta, tinha bons exemplos à minha volta do que era a luta pela vida e pelos direitos humanos. De repente, a mim que tinha tido uma educação privilegiada, estoira-me na cara aquilo sem eu perceber porquê.

Mas depois, já na minha vida activa como jornalista, sempre que pude fui estagiar para fora e esses períodos sempre me deram uma grande noção de mundo, porque pelo mundo inteiro há muitos estrangeiros, há muitos estranhos em terras estranhas. Andamos todos por aqui e ficamos com a noção que isto é tudo nosso e, principalmente que isto é tudo muito pequenino.

Nós – Tentas passar essa noção de mundo aos teus filhos ou na Casa do Gil?

MPC – Tento a todos os níveis. Isso traduz-se naquilo que eu sou. Tento dar aquilo que recebi e dar de volta. Na Casa do Gil encontrei uma forma de devolver o que o Universo me tem dado e também pela visibilidade da minha profissão. Trabalhar em televisão tem isso, tento utilizar a minha imagem como um poder bom e assim chegar às pessoas defendendo causas em que acredito. É a melhor forma de retribuir.

Nós – Qual é a mensagem que gostarias de deixar para as pessoas que não tiveram a oportunidade de conhecer o mundo como tu?

MPC – É sobretudo uma mensagem de disponibilidade. De abertura, de estar disponível para ouvir os outros antes de os julgar, de não os rotular. Por favor nunca rotular! É um erro que muitas vezes cometemos, é humano, mas podemos trabalhá-lo. Porque a disponibilidade dá-nos imensos mundos mesmo que estejamos sempre no mesmo lugar.

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