Ângelo Torres, contador de histórias e actor, natural de S. Tomé, falou ao Programa Nós, sobre a sua recente experiência como realizador. “Kunta”, a sua primeira curta-metragem, inserida no âmbito do Ano Europeu do Diálogo Intercultural, apresenta-nos mais um ponto de vista sobre a imigração. Aqui fica um excerto da entrevista.
Nós – Ângelo, como é que um engenheiro se torna um actor?
AT – Boa pergunta. Hum… Honestamente não sei, a sério… Apenas tinha uma certeza. Eu como engenheiro seria uma nulidade. Disso tinha a certeza absoluta, portanto decidi tentar ser útil em alguma coisa e saiu-me o teatro na rifa.
Nós – Entretanto, o Ângelo começou a trabalhar como actor tendo sido reconhecido do público português. Tem sido recompensador trabalhar em Portugal?
AT – Sim. Eu posso considerar-me uma pessoa cheia de sorte.
Nós – É engraçado porque o público tem-no visto mais como actor e agora o Ângelo decidiu lançar-se neste desafio da realização. Porquê a realização agora?
AT – Não é o tipo de coisas em que uma pessoa toma logo a decisão. No meu caso, pelo menos, aconteceu por mero acidente. Houve uma época em que eu e um grande contador de histórias, também meu amigo, chamado António Fontinha, contávamos histórias num bar/restaurante ao pé da Costa do Castelo, no Restaurante Bar Imagem. Um dia, estava eu n’A Barraca a contar histórias, quando me apareceu alguém que ficou sentado a tomar notas. Eu pensei: “Bem, deve ser um jornalista”. No final veio ter comigo e disse-me: “Acabei agora a escola de cinema, fiz guião e imagem. Como eu não tenho jeito para contar histórias, queria saber se terias alguma história que quisesses contar, para podermos trabalhar em parceria.” E eu disse-lhe: “Que engraçado. Eu tenho uma ideia que não me tem saído da cabeça. Porque Não?” E assim foi…
Nós – “Kunta” é a primeira curta-metragem que o Ângelo está a realizar e é também ligado à temática da imigração, inserido um pouco no âmbito do Ano Europeu do Diálogo Intercultural. Conta-nos um bocadinho, quem é este “Kunta”, afinal?
AT – “Kunta” é uma homenagem que eu faço a uma série que me marcou imenso, chamada “Raízes”. E eu vi “Raízes” em Cuba e naquela altura, quando um cubano não sabia o nome de um estudante africano chamava-lhe de Kunta Kinte. Então, escolhi o nome por causa disso. Este “Kunta” é um imigrante que vive em qualquer cidade da Europa, neste caso em Lisboa, numa pequena localidade nos arredores da cidade. Um dia acontece uma coisa inusitada. Soa o telefone do café que ele e os habitantes daquela pequena localidade frequentam. São uns espanhóis à procura dele. A partir daí, como as pessoas não o conhecem, começam a especular e dessa especulação faz-se toda a história do filme.
Nós – Também há um pouco do “Kunta” dentro de Ângelo Torres?
AT – Sim. O mais engraçado é que eu já vivi em seis países, incluindo S. Tomé, e eu nunca vivi num país em que o meu passaporte correspondesse a esse país. Sempre fui um estrangeiro desde criança, nos seis países em que vivi, portanto sou sempre “Kunta”.
Nós – O Ângelo diz que é um contador de histórias que gosta de fazer as outras pessoas sonhar. Mas que sonhos ainda lhe faltam realizar?
AT – A próxima curta. Chama-se “Feiticeiro Branco”. Gostaria muito de poder embarcar, como já está planificado, no dia 21 de Junho para S. Tomé e voltar no dia 26 de Julho, com o filme feito para começar a montá-lo.