O Programa Nós entrevistou, no passado mês de Junho, Nuno Artur Silva autor, fundador e director das Produções Fictícias. Recentemente, por ocasião do Ano Europeu do Diálogo Intercultural, Nuno Artur Silva foi moderador de uma das três tertúlias organizadas pelas Produções Fictícias, no Teatro Municipal S. Luiz, inserido no Ciclo “Outras Lisboas”.
Nós – Nuno conte-nos um pouco dessa tertúlia. Sei que foi sobre o Brasil… Aprendeu alguma coisa? Foi necessário fazer alguma pesquisa?
Nuno – Sim, claro. Sempre que organizamos alguns destes debates temos que nos preparar minimamente e perceber quais são os ângulos que vamos abordar. Em relação a este específico do Brasil, vivemos actualmente um momento especial nas relações Portugal-Brasil, pelo facto de se estar a discutir o Acordo Ortográfico, que para mim até tem uma importância menor em relação a tudo o resto. Mas, o acordo é um pretexto para se falar das outras coisas e para redescobrir um Brasil diferente, sobretudo num momento em que se anuncia que, de facto, o Brasil está pujante: faz parte do grupo dos BRICs (dos tais países emergentes) e, de entre eles, é capaz de ser o que tem, apesar de todos os problemas, melhores condições para um crescimento sustentável.
Nós – Para além destas conclusões, como é que vê a integração dos imigrantes actualmente em Portugal?
Nuno – Isso foi falado no debate. Eu julgo que há problemas como em todo o lado. Mas, há a questão da língua que há partida é um facilitador, apesar de muitas vezes isso ser mais fácil para os brasileiros que vem para Portugal do que para os portugueses que vão para o Brasil. Havia aquela frase do Óscar Wilde, sobre os Estados Unidos e a Inglaterra, em que ele dizia “Tanta coisa em comum, mas há sempre a barreira da língua”. Às vezes, entre portugueses e brasileiros há quase a mesma sensação, sobretudo quando somos portugueses e o nosso trabalho tem de passar no Brasil. Os brasileiros não estão habituados ao nosso sotaque… Por exemplo, na área da produção, a nível de trabalho artístico em língua portuguesa para levar ao Brasil, eles não estão habituados… Nós estamos, porque temos a telenovela há muitos anos.
Mas, voltando à questão dos brasileiros, eu acho que o Brasil deve ser dos países em que é mais fácil a integração em Portugal. Não só por causa da língua, mas por já estarmos tão aculturados em relação a uma série de comportamentos e tradições culturais brasileiras que estão implantados em Portugal. Falámos da telenovela mas também podíamos falar da música brasileira. De uma maneira geral, o Brasil está muito presente em Portugal, o que favorece a integração dos brasileiros, pelo mais que não seja, do ponto de vista da cultura, de se sentirem em casa.
Nós – Como é que a professora Lucia Lepecki, o publicitário Edson Athayde e a escritora Inês Pedrosa contribuíram para esse debate?
Nuno – Foi muito interessante porque o Edson Athayde trouxe uma série de estatísticas e de números sobre a percepção que Portugal tem do Brasil e que os brasileiros têm de Portugal, e que muitas vezes desmentem os lugares comuns que, aparentemente, temos em relação a uns e outros. A percepção de uns e de outros está a mudar muito, muito rapidamente. Por outro lado, quer a professora Lucia Lepecki, quer a Inês Pedrosa, trouxeram a perspectiva da língua e da literatura. A Inês, por exemplo, falou da maneira como alguns escritores portugueses começam a ser recebidos no Brasil e que há uma abertura muito grande para esse intercâmbio.
Nós – Porque é que as Produções Fictícias achou importante participar neste Ano Europeu do Diálogo Intercultural e decidiu, junto com o Teatro S. Luiz, promover estas tertúlias dedicadas a África, à Europa de Leste e ao Brasil?
Nuno - O desafio veio do professor Jorge Salavisa, director do Teatro S. Luiz, com quem nós trabalhamos há quatro anos a fazer essas tertúlias, o “É a cultura, estúpido”. Como este ano o S. Luiz tinha dedicado a programação à relação, precisamente, com os países de Leste, com o Brasil e com África, nós, aliás, por sugestão do Jorge Salavisa, pensámos que seria óptimo fazer também o “É a cultura, estúpido” à volta da relação dos “outros lisboetas”.
Nós – E quem são esses “outros lisboetas”? O que fazem? Onde estão?
Nuno – Eu acho que são pessoas que estão de facto a mudar Lisboa e isso é evidente. As pessoas às vezes esquecem-se disso, sobretudo quem anda muito de carro e, infelizmente, Lisboa é uma cidade em que ainda se anda demasiado de carro. Quando se anda a pé ou de transportes públicos, percebe-se que há uma Lisboa nova na rua e nós encontramos essa Lisboa. Acho que, em termos genéricos, o sentido para onde nós caminhamos é o sentido da diversidade. O sentido das cidades é tornarem-se cada vez mais misturadas, cada vez mais diversas e isso acrescenta riqueza, acrescenta cor, acrescenta diferença e experiência. Lisboa, que tem a tradição de ser uma das primeiras cidades europeias de mistura, tem hoje em dia condições geográficas, culturais, estratégicas e políticas, para poder ser novamente uma cidade de grande encontro de culturas, de diferentes pessoas, de diferentes países. Eu acho que isso está a acontecer em Lisboa. É inevitável. Há muitos sítios que não são guethos fechados, mas locais em que as pessoas já se comunicam. África já está muito presente em todos os elementos da noite e da cultura urbana lisboeta e o Brasil também e cada vez mais.
Nós – Como autor, acha que essa diversidade lhe traz novas ideias enriquece o seu trabalho?
Nuno – Claro que sim. Eu acho que o maior enriquecimento que se pode ter é o da mistura, da mestiçagem. O Brasil é um grande exemplo disso. É um país riquíssimo por causa da grande mistura que é.
Nós – Encontrámos uma citação tua que dizia “Um país e a sua cultura são tanto mais ricos quanto mais diversidade e qualidade e narrativas e personagens tiver”.
Nuno – É o que eu acho. E eu penso muito nisso porque, a nível de formação profissional, o meu trabalho é escrever histórias, inventar histórias… Cada pessoa transporta a sua história, as suas histórias, e a vida fica tanto mais rica quanto mais diversidade de histórias houver. Nós vivemos consoante aquilo em que acreditamos, quer seja nas religiões, quer seja no amor, e inscrevemos as nossas vidas reais, chamemos-lhe assim, nas histórias em que acreditamos. Tanto podem ser histórias da Bíblia como as fábulas Zen. Tanto podem ser as histórias de amor clássicas como podem ser histórias mais alternativas. Mas, a verdade é que nós vivemos, desde sempre, em função dos mitos e, tal como na música, quanto mais ritmos, quanto mais melodias, quanto mais integrarmos toda a diversidade do mundo, mais nos enriquecemos.
Nós – Acha que falta muito para chegarmos ao estatuto de uma televisão inglesa, por exemplo, que tem que lidar com todos os géneros, com todas as etnias? Saberemos integrar tudo isso no mundo da televisão? As pessoas irão entender essa realidade?
Nuno – A Inglaterra tem uma tradição que nós não temos. Não só uma tradição democrática, que nós temos mais recentemente, mas também por causa da língua inglesa que é a língua franca, a língua nº. 1. Há uma produção clássica, a marca de produção da BBC, que faz da BBC uma multinacional extraordinária de produção de conteúdos. Nós não estamos nesse patamar. O Brasil está muito mais próximo disso do que nós por causa da dimensão da Globo e, enfim, da própria dimensão do país. Nós temos algum potencial para fazer isso, mas a nossa escala é diferente.
Nós – Acha que isso pode estar relacionado com o sotaque, porque talvez possa ainda existir algum tipo de preconceito com o sotaque brasileiro ou com o sotaque que venha de Angola, Moçambique ou S. Tomé?
Nuno - Eu acho que há sempre uma resistência ao sotaque diferente e, portanto, demora mais tempo a aderir do que se tivermos o sotaque que habitualmente ouvimos na rua. Mas, a verdade é que, cada vez mais, nas nossas ruas, há uma mistura de sotaques e, nesse sentido, eu acho que caminhamos, não sei se rapidamente se lentamente, para também na televisão haver a presença dessa diferença, seja ela africana, seja brasileira, seja do leste, seja dos novos imigrantes que possam chegar.
Nós – Para finalizar, o que é preciso para que as pessoas sejam mais activas neste Ano Europeu do Diálogo Intercultural e para que continuem a sê-lo nos próximos anos?
Nuno - Parece-me que, no fundo, o que é preciso para a nossa vida em geral, é não fecharmos as portas ao que nos parece diferente e estranho. Pelo contrário, é abrirmos a possibilidade de esse diferente e esse estranho poder vir enriquecer a nossa vida. Normalmente são as coisas mais diferentes, as coisas que nós não compreendemos à partida, que nos dão uma maior possibilidade de crescer. O que é preciso que as pessoas tenham sempre, este ano ou nos próximos, é disponibilidade.
Nós – E isso, para si, é uma esperança?
Nuno - Sim. E, nem é preciso pensar como um autor, como um criativo, mas como uma pessoa. Se as pessoas pensarem, é a diferença entre ficarmos fechados no nosso mundo sempre igual ou podermos abrir às mil possibilidades que a nossa vida nos dá. Se quisermos uma comparação tecnológica, é como ter um jogo de computador em que só se vai a um nível e nunca chegamos a ir aos outros níveis, a subir e a experimentar. Se há algum sentido nas nossas vidas, esse sentido deve ser o de conhecer, procurar e viver a diferença e experimentar a diversidade. Julgo que o sentido do mundo é tornar-se cada vez mais diverso!